Medocracia
29/09/2008 | 2 comentários | Permalink |

Segue na íntegra o texto que enviei para a Revista Feed-se, que acaba de sair em sua edição especial sobre Democracia. Fui convidado a escrever um artigo que estivesse relacionado com a liberdade de expressão e sobre a luta por este direito, mas acabei falando sobre como o mercado pode tirar esta liberdade de maneira sutil. Não deixem também de baixar a edição da revista e ler, por exemplo, a apuração do caso do fechamento do domínio Twitter Brasil e casos de cyberativismo.
Medocracia
Entendendo relações de poder e influência sobre a sua dita liberdade de expressão.
Voltemos ao fim de Roma, perto do ano 476 d.C, quando acabou o Império Ocidental e começou a Idade Média:
Enquanto Roma passava por uma profunda crise em todos os seus setores, o grande Império passou a ser sacudido por hordas bárbaras que atacaram todas as fronteiras.
Quem tinha terra e alguns recursos começou a erguer grandes fortalezas que poderiam proteger as vidas abrigadas de possíveis saques.
Temendo pela sua segurança nas cidades, a população iniciou um êxodo urbano e passou a se concentrar nas proximidades dos castelos, pedindo proteção ao senhor das terras. Um movimento de sobrevivência sensato em que o cidadão trocava os seus direitos conforme as leis pela proteção paga por submissão a um regime de servidão.
Tal ilustração serve apenas para passarmos a conversar sobre o termo que intitula este artigo. A Medocracia não é o poder da tirania, e sim as atribuições de poder que o medo deu a cada parte.
No caso citado, percebe-se que o poder do senhor feudal só foi possível pela existência de uma ameaça em potencial, um medo que pairava sobre os servos nos primeiros momentos de Idade Média.
A pergunta que deve ser feita antes do prosseguimento é: e quem não tem medo?
Quando falamos em comunicação no Brasil em tempos pós-ditadura, falamos de alguns poucos grupos que dominam a opinião pública. Tal estrutura é o que, basicamente, alimenta todas as famílias de quem trabalha em jornais, agências de publicidade, empresas de pesquisa e até nos departamentos de marketing.
O jornal que você lê, a revista que você assina, o canal de televisão a que você assiste: – todos fazem parte das posses de um seleto grupo de empresários que têm o poder de ditar os rumos da opinião pública.
E são nesses meios que a publicidade tem os seus lucros, as pesquisas são geradas e o marketing estuda os seus ganhos.
É possível comparar estes grandes empresários da mídia aos senhores feudais. Um pobre camponês precisa se refugiar em um dos castelos para sobreviver, ou, em outras palavras, precisa estar ligado, de certa forma, à mecânica.
É simples assim. Não há jornalismo, publicidade ou outra atividade de comunicação que não tenha pelo menos um pé dentro da terra destes senhores.
Você já assistiu a um documentário produzido sobre o Governo de Minas Gerais e sua suposta influência em veículos de comunicação?
Vez ou outra, uma coisa dessas surge, alimentando as nossas síndromes de conspirações e perseguições, sem que efetivamente tenhamos alguma confirmação da verdade.
O vídeo entrevista alguns jornalistas que teriam perdido o emprego no maior jornal de Minas Gerais por publicarem comentários negativos em relação ao Governador local.
O dia-a-dia no feudo é bem menos tenso do que isto, mas passa pelo mesmo questionamento: escrever tal artigo pode contrariar pessoas, mas se contrariar a alta cúpula do veículo que paga o salário, o que acontece?
E então surgem os blogs como alternativa a quem produz comunicação com qualidade e isenção.
Uma verdadeira revolução, se voltarmos aos papos de 2005 e 2006. O volume de coberturas instantâneas e de opinião fez dos blogs potenciais competidores dos feudos. Hordas bárbaras de respeito. Um pequeno post pode fazer grandes estragos.
É claro que os senhores feudais podem ficar de olho no que os seus servos produzem nestas mídias sociais. Mas o poder que eles têm para calar uma voz destoante de seu coro já não é mais o mesmo até porque já existem blogs com maior número de acessos do que os leitores de alguns jornais.
Seria a blogosfera o último reduto longe da Medocracia? Talvez não para este que lhes escreve, cujos ganhos estão ligados à publicidade.
Mas se é bobagem, então a preocupação deste texto com algo que provavelmente não ocorre com os blogs – como a existência de blogs patrocinados por empresas, embaixo da aba de grandes grupos de mídia ou bancados por agências publicitárias -, brindemos à isenção.
Ou aproveitemos estes belos dias de Camps para discutir quem é que vira senhor feudal se o blogueiro for o servo nesta metáfora.
categorias: Aleatoriosfera, Comportamento, Opinião



