Um feriado mais geek
Escrito em 16/01/2008 | 2 comentários | Permalink

Continuando a nossa saga sobre o Carnaval, falarei agora sobre o carnaval geek. Este pessoal, já definido por aí como “o nerd com vida social”, antenado e descolado precisa de um canto para descansar ou festejar ou ainda reunir a patota. Só não pode faltar câmera para ter fotos para o Flickr ou vídeos para o YouTube, aparelhagem (básica, avançada, profissional móvel ou “cara, que inveja“) para atualizar blog e Twitter.
A verdade é que o Carnaval em si não deve ser a data mais esperada ou mais lembrada de fevereiro: o Campus Party (doravante denominado CP, para evitar mutretas) acontece na semana seguinte. Não à toa, o evento ganhou o carinhoso apelido de “Nerdstock”. Começo a discordar do apelido, já que proibiram a marvada por lá.
Aqui vão algumas opções de carnaval então. Servem para aqueles que pretendem aproveitar o feriado de abertura da quaresma para alguma coisa e ainda se preparar para a semana geek consecutiva:
Aproveitar o feriado e arrumar as malas para o CP. Publicar posts atribuindo nota a todas as escolas de samba. Beber tudo no carnaval, já que o álcool não está liberado no CP. Aproveitar para descansar, porque acampar durante uma semana na Bienal não deve ser lá muito relaxante. Desligar-se para passar, depois do feriado, uma semana conectado full-time. Se o retiro espiritual incluir corte na bebida, levar uma garrafa escondida na bagagem do CP. Farrear, cair e levantar para mais no Carnaval. Relatar tudo via Twitter. Reclamar durante todo o CP da ressaca e aproveitar a semana apenas para baixar todas as temporadas de suas séries favoritas. No CP, xavecar as blogueiras, tuitteiras, palestrantes, etc. No Carnaval, somente flogueiras. Faça sexo, mas use camisinha. Dependendo da viagem, acontecerá o inevitável teste: será que o seu gadget resiste à água do mar? Caso ele sobreviva, relate a história num post.
Eu, que ainda não decidi se assumo que tenho as minhas nerdices ou que adoro a vadiagem, terei que cobrir os dois. Talvez de maneira confusa como o parágrafo acima. Quase certeza.
categorias: Aleatoriosfera, Carnaval, Comportamento, Eletroniqueira, Internet, campuspartybr
Contemporâneo
Escrito em 13/09/2007 | 1 comentário | Permalink
*Nota do autor: o texto a seguir é o texto integral de um original publicado em 3 posts, em diferentes datas de novembro de 2006. Na época, fazia sentido criar um efeito novela, um questionamento/inquietação no leitor para saber onde é que o texto iria chegar. Hoje, cabe o registro de uma crônica que eu gostei de escrever
Ela sempre acreditou que as cores da alvorada eram o que dava tom às suas pinturas, e dizia que já não via muita graça no resto. Voltar para casa era “coisa pra depois das seis, sua janela tem uma vista linda”. Eu também nunca reclamei dessa nêura. Apenas achava emgraçado como os olhos dela brilhavam para o amanhecer. Brilho que, em todos esses meses, nunca foi para mim.
Resolvi não mais competir e comprei um cachorro. E um Ipod. E uma câmera digital (para irritá-la e mostrar que a tecnologia digital faz mais cores que aqueles pincéis sujos). E um laptop, para tomar café “pagando de hype”, segundo ela. E todos os CDs do mundo, via Soulseek e Torrent, é claro. E mais umas quinquilharias eletrônicas que hoje me tornam um homem contemporâneo culturalmente inserido e mercadologicamente visado mais completo. Quando ela foi embora, não consegui pedir para ela ficar. Estava postando no meu blog.
Ela sempre volta.
Desta vez, ela trouxe muita tinta e muito plástico. Disse alguma coisa sobre fazer uma intervenção urbana na Paulista, “para dar um pouco mais de cor àquela Meca do concreto”. Nossa! Lembrei de sacar minha câmera digital e já ia perguntando quando iríamos. Ela levantou a sobrancelha, fez aquela de “como assim? agora você se interessa pelo meu trabalho?”, mas antes que ela pronunciasse qualquer coisa, adiantei-me:
— Esta sua mob vai dar um excelente post. Vejo minhas visitas se multiplicando! Ainda dá pra mencionar que eu tenho um affair com a responsável pela ação…
— Eu não acredito! Eu fico dias pensando em algo que vai virar carne de vaca efêmera na mão de uma meia-dúzia de nerds? (começou a me xingar) (parou de me xingar). Nem para respeitar o meu trabalho!
— Você que respeite o meu trabalho! Se as visitas aumentarem, eu começo a sustentar esta casa e até esses seus luxos artísticos com o Adsense…
— (voltou a me xingar… e parou depois de meia hora)
Ela esbraveja demais. Mas eu gosto, ela também gosta e a gente se entende bem na cama. E eu ainda não troquei isso por uma trepadinha virtual no Second Life. Se bem que foi num fórum sobre rotina sexual de casados que descobri umas artimanhas que nos fazem ver estrelas. Mas ela não precisa saber disso. Na hora, ela sempre elogia minha criatividade…
E até concordamos em muita coisa: não queremos ter filhos. Eu acho que a TV e a Internet poderão fazer deles aquelas coisas que beiram a raça humana, enfurnados em casa, comendo batata frita e engordando em frente às telas. Desespero-me ainda mais com este pavor quando me olho no espelho. Ela acha que o mundo não é mais um lugar saudável para se criar um filho. Muita violência, pouca cor, pouca perspectiva de futuro…
Outra coisa que concordamos é que morar junto, de fato, não está no plano: “intimidade é uma merda”. Uma garota certa vez me disse, em tempos idos de colégio, que achamos a pessoa ideal para se casar quando imaginamos a dita cuja defecando. Escatológico demais, mas tive que dar razão em troca de uns beijinhos. Tenho medo de pensar no que esta garota pensava.
Por fim, concordamos que amor está fora de moda, mas às vezes discutimos se não são os nossos amores que andam ultrapassados. Quem ainda ama a alvorada sem ter se entupido de drogas durante a madrugada ou sem ter vivido menos de 40 anos? Da mesma forma, ela considera que todas as parafernalhas eletrônicas que compro “são apenas uma forma um pouco mais adulta de se masturbar feito um adolescente.”
E a intervenção? Bom, no fim das contas, ela foi um sucesso e, como esperado, saiu em tudo o que era canto: blogs, jornais, revistas… O vídeo no YouTube também teve muitos views. O nome dela ficou muito bem cotado, o que acabou gerando uma série de convites para que ela montasse exposições.
Passou-se um ano nesse ritmo: ela viajava pelo país todo. Eu, em casa, recebendo emails (foi um avanço para ela, que percebeu que andar por aí com o meu laptop era mais barato que pagar interurbano). Ela sempre mandava fotos também, tanto das obras quanto “do melhor lugar para se assistir ao nascer do sol aqui neste fim de mundo”.
Acabei ficando com mais tempo ainda para mim. Vez ou outra, saía com algum amigo. Vez ou outra, eu ficava dias conectado à rede, non-stop, baixando vídeos, programas, músicas e qualquer coisa que me deixasse mais contente.
Quando ela voltava para casa, era praticamente mecânico: sexo, jantares com os amigos artistas dela, mais sexo, ida ao Aeroporto. Dava saudade de brigar com ela.
Na última vez que ela voltou, disse que havia sido convidada para gerenciar permanentemente um acervo em Paris. Paris?
— É. Uma oportunidade muito grande para mim, você não acha?
E aí ela foi. E eu fiquei triste por um tempo até entender a regra número um da contemporaneidade: nada é do jeito que é por muito tempo.
Tudo fica obsoleto.
Ela sempre me contrariou. E acho que, desta vez, ela tinha um pouco de razão: sempre disse que não éramos “feitos de plástico com telas de cristal líquido” e que seria bom eu saber diferenciar.
A vida é mesmo um eterno aprendizado. E ser contemporâneo seja, talvez, ficar se contradizendo o tempo todo.
categorias: Comportamento, Crônicas, Eletroniqueira, Internet
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