O menino do Photoshop

12/10/2008 | 10 comentários | Permalink |

japas

Quando surge uma ferramenta, abençoados são aqueles que sabem utilizá-la. Quando um bocado de pessoas também aprende a utilizá-la, abençoado é aquele que diz para quê utilizá-la. É assim desde a Idade da Pedra Lascada e com certeza o mundo da computação não ficaria de fora. Mas este monte de linhas foi só para começar a contar sobre o Lauro, o cara que arrumaram para a criação da agência.

Ele era um daqueles garotos que gostava de desenhar. Alguém sem muito juízo, seja da família ou dos amigos, deve ter batido nas costas dele e dito “cara, você é criativo! Por que não faz Publicidade?”

Fez uma lista das coisas que deveria aprender durante o seu curso: reverenciar Argan, mexer no Photoshop, sexo (sim, era virgem o coitado) e fazer “sacadinhas” mais rápidas. Pelo grau de dificuldade um pouco maior dos outros tópicos, focou-se no Photoshop enquanto se perguntava por que tinha aulas de sociologia. Começou montando apresentações bonitas dos trabalhos escolares. Passou a “fazer a arte” dos anúncios fakes que os professores pediam. Virou um mito da montagem quando colocou o seu rosto num corpo esbelto que trepava com uma atriz pornô, que, claro, ganhou o rosto de algum colega que queria sacanear.

Logo no começo do segundo ano de faculdade, começou a trilhar a sua grande meta: big agency! Mas claro que ele tinha que começar de baixo. Pensava que por não ter pasta, nem QI corporativo e tampouco ser mulher e gostosa, não poderia entrar facilmente numa big one. Conseguiu uma chance num projeto de agência, estágio em criação. Ali trabalhavam ele, estagiário, e o chefe, que acumulava as funções de atendimento, mídia, planejamento, diretor de criação e CEO.

Ainda que ensaiasse algumas boas ideías, sua função era executar o que o cliente pediu. Recebia briefings como “eis aqui o catálogo. queremos uma versão online. você pode escanear tudo e montar um site?” e “um site simples, sem muita firula. O cliente apenas pediu para que o logo dele girasse”.

Mas a vida é uma caixnha de surpresas. Um dia, disse Lauro, seu chefe o flagrou escaneando sua carteirinha da faculdade, perguntando-lhe o porquê daquilo. Lauro explicou que um colega já formado precisava comprar meio ingresso para algum show da pesada e que daria dez reais a ele se conseguisse produzir uma carteirinha de estudante verossímil. Lauro ainda mostrou a versão final da maracutaia e depois confirmou o sucesso do trambique.

O chefe desta agência, a maior de todo o quarteirão daquele pacato bairro, viu ali uma mina de ouro. Num estranho mundo de enrolações perdidas e protocoladas em que os desvios de verba são irrisórios para uma profunda investigação, ter um menino que operasse pequenos “consertos” em documentos valia muito. Parou de trazer novos briefings e passou a trazer empresários dos conjuntos vizinhos. Um pedia alteração no RG do funcionário, que era menor, para que pudesse entrar em visitas técnicas. O outro pediu que alterasse uma nota de dívidas para figurar como não-devedor. Um, mais desesperado, pedia que alterasse a conta telefônica para que o número da amante desaparecesse. Por cada job, Lauro ganhou um extra em relação ao seu pequeno salário e o seu chefe ganhou importantes aliados.

Lauro realmente operava com maestria a arte de modificar documentos, mas se incomodava com os fins daquilo. Quando se cansou, parou de pegar freelas de colegas pedindo carteirinha de estudante e se afastou deste primeiro emprego. Começou a medir as conseqüências de descobrirem o esquema e já passava a competir com outros ferramentistas um pouco menos talentosos, mas mais baratos, em sua própria faculdade. Um fazia réplicas perfeitas de tíquetes do Bandejão. O outro fazia documentos da faculdade, rubricados, assinados e carimbados para os mais diferentes fins. Ainda indicou um deles para o seu lugar antes de oficializar a demissão da agenciazinha.

Penou em mais alguns trabalhos que pouca gente se sujeitaria até finalmente ter cara de pau de bater numa agência grande e pedir um emprego. Tornou-se um criativo bacana, daqueles que leram Argan e mais um monte de coisa, e queria rodar o mundo para ensinar a molecada que é necessário aprender a pensar antes de aprender a mexer no Photoshop (ou que pelo menos só aprender a mexer no programa não resolvia a vida de ninguém). Mesmo trilhando um caminho do bem, teve um último job como menino do Photoshop:

Fez uma montagem de uma garota da sala dele no corpo de uma dessas modelos da moda. Junto, mandou um cartão dizendo que era assim que ele a via. Não sei se é bem um exemplo ilustrativo de que Lauro aprendeu a pensar, mas uns dias depois, é fato, aprendeu a fazer sexo.

categorias: Comportamento, Corporativo, Crônicas, Publicidade

 

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