Cultura de meme é comportamento de rebanho

17/01/2009 | 7 comentários | Permalink |

boiada

O título é provocativo, mas entendam que eu não estou aqui para me opor à memética ou à eficácia delas como ação. Para falar a verdade, um outro publicitário menos avisado gritaria “eureca” se descobrisse como tais coisinhas fazem a festa na Internê. Alguns talvez nem gritem, mas já realizaram alguma coisa. Eu prefiro continuar lendo tudo com boa vontade e cuidado antes de passar para frente alguma idéia e, como função que me cabe neste blog, dividir este cuidado com a minha meia-dúzia de leitores.

Não é uma questão também de ser contra passar as coisas para frente na Internê. A mobilização rápida é algo que veio para ficar e tem exemplos ótimos por aí. Quando aconteceu o temporal em Santa Catarina, um apanhado de pessoas filtrou e juntou informações sobre as regiões atingidas. Fizeram do Alles Blau uma das melhores iniciativas da curta história blogueira canarinha. A comoção nacional, como um todo, fez valer a pena passar informações para frente.

Mas, como eu disse, é preciso entender os interesses por trás de um inocente meme. No ano passado, por exemplo, eu assisti à tentativa mais-do-que-estranha de transformar o então candidato à prefeitura Gilberto Kassab em uma espécie de Barack Obama tupiniquim. O site, recuperado pelo cache do Google, pediu o apoio de alguns blogueiros ao candidato, com direito a selinho e tag no Twitter. Na época, registrei minha opinião e ainda fiz piada. A questão não é entrar em méritos políticos, mas sim pensar em como disparar um monte de opiniões rapidamente na web impede que se pense um pouco a respeito do assunto. Não quero aqui desmerecer o trabalho daquele que coordenou os esforços em Mídias Sociais da campanha, do blogueiro que o ajudou e de quem apoiou o candidato. Apenas achei estranho, assim como achei estranho o Cansei, que foi mais engraçado pela contra-campanha que teve, ainda que os posts pró-Kassab também tenham ótimas pérolas.

Além disso, numa onda mais recente, tivemos um ruído causado por pessoas contra a dita blogosfera, que via twitter tentaram aterrorizar uma campanha publicitária. Novamente não estou aqui desmerecendo quem quer ser contra campanhas na Internê nem julgando a qualidade da campanha alheia. Apenas achei estranho, porque no meio de quem protestou havia gente que já foi a eventos patrocinados ou mesmo recebeu brindes de empresas, retribuindo com posts.

Tudo bem, eu mesmo já fiz parte, certa vez, de uma campanha para um candidato político de quem eu não era partidário, coisa que me deixou em crise por uns tempos. Podia ter negado e talvez ter sido demitido, mas era um bocado novo e covarde para tanto. Hoje só tenho a certeza de negar qualquer proposta deste tipo que eu receba no futuro. Como também já fui contra a exploração publicitária de blogs, mas hoje vejo que, se feita de forma ética, não há problema algum.

O que realmente me incomoda é ver que a maior parte das pessoas que integram uma ação destas realmente não param para refletir. Vira comportamento de rebanho, massa de manobra ou outro sinônimo. Comportamento que me faz lembrar do que aconteceu há alguns anos, quando “invadi” a Assembléia Legislativa junto com diversos colegas da USP, para reivindicar a votação contra o veto do governador ao aumento do repasse de impostos para as Universidades paulistas. Causa linda, se explicada até aqui. Quando voltei para a escola, começamos a discutir se o departamento deveria aderir à greve e um colega se dispôs a trazer os dados de arrecadação de ICMS do período em questão. A matemática era simples: o aumento da porcentagem pedido de acordo com os números do ano anterior e o aumento da arrecadação devido ao aumento da produção no Estado e, portanto, do repasse às universidades era igual. O que estava errado ali era ignorar que a briga real deveria ser com a transparência nas contas da USP, e não com o Estado. Mas limpar a casa é sempre mais complicado do que falar dos outros…

Por isso, leia, reflita e, se possível, discuta antes de aceitar um call to action. Serve para propaganda política e para propaganda em blogs. Criar polêmica no Twitter pode ser divertido e em alguns casos funciona, mas enviar denúncia ao PROCON, ao CONAR ou ONGs como o IDEC quando se sentir lesado com qualquer tipo de campanha pode ajudar a mudar as coisas também. Se acatam a sua denúncia, o anunciante é obrigado a tirar a peça do ar, sem choro. Será necessário apresentar uma argumentação melhor do que “sou contra publicidade em geral”, mas se realmente o anunciante estiver sendo anti-ético, funciona. Não é o que penso dos casos mencionados aqui, mas se você acredita nisso, tente provar e seja feliz. Ou não. Apenas fuja desta cultura de passar para frente porque é meme quando o assunto é mais sério.

categorias: Aleatoriosfera, Comportamento, Opinião, Publicidade

 

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