Urubus comedores de carniça
Escrito em 03/06/2009 | 14 comentários | Permalink |

“Yellow journalism is a type of journalism that downplays legitimate news in favor of eye-catching headlines that sell more newspapers. It may feature exaggerations of news events, scandal-mongering, sensationalism, or unprofessional practices by news media organizations or journalists” – Wikipedia gringa sobre yellow journalism, o equivalente a imprensa marrom.
A imprensa brasileira, mais uma vez, nos presenteia com um show de horrores, transformando a tragédia pessoal de alguns num espetáculo de todos. O que se assiste na televisão, nos portais e nos jornais é um caldo de notícias desencontradas, não-confirmadas e cruelmente manipuladas para dar um toque de sensacionalismo barato. O blog Salve a Rainha teceu ontem um comentário mirando nas headlines sobre o acidente aéreo que ocorreu nesta segunda-feira de uma maneira que não concordo, mas acabou acertando em cheio nos despropósitos daqueles que deveriam informar em favor da verdade.
A verdade é que o acidente com o voo da Air France deve ter uma explicação, tem que ter investigação e informações oficiais sobre esforços de buscas afim de um desfecho devem ser noticiadas. Só isso? Trata-se de algo que já daria muito trabalho a jornalistas sérios para pesquisar e informar. Entretanto, não é este o único esforço de enormes equipes, que dizem praticar jornalismo sério. É tanta pauta que sobra até para uma Ana Maria Braga entrevistar especialistas sobre aviação e engenharia aeronáutica.
Como o referido post do blog Salve a Rainha insiste, o que adianta noticiar que havia um casal em lua de mel no voo? De que vale para a busca dos fatos saber que um dos passageiros tinha medo de voar? Por trás desta humanização de uma notícia, afim de torná-la mais próxima de nós, reles mortais que poderiam estar num voo com um trágico e igual fim, o jornalismo marrom praticado pela imprensa brasileira exibe cada detalhe de carniça sensacionalista para ávidos leitores, hipnotizados pelo mistério e pela esperança de um desfecho milagroso.
Duas coisas devem ser comentadas sobre o que está ocorrendo neste momento em uma série de redações canarinhas:
1. Nesta busca pela headline mais impactante, quanto esforço está sendo colocado para cutucar a ferida daqueles que estão num momento difícil? Será o mesmo esforço que o jornalista está fazendo para entender laudos técnicos que virão a seguir para não ficar repetindo termos como grooving, reversor ou transponder, entre outros repetidos de maneira vazia no passado, em um infográfico para leigos?
2. Vale mesmo a pena correr atrás da melhor headline em detrimento de dar a notícia corretamente? Se valer, o que impede um jornalista destes de tentar comprar, por exemplo, um assessor de imprensa para que ele forneça comunicados oficiais vazios apenas para que sua equipe tenha um “furo”? Aqui vai uma notícia para vocês: não impede e eu tenho convicção que alguns colegas assessores de imprensa que já passaram por um gerenciamento de crise sério como este já receberam assédios semelhantes.
Há algo muito mais podre do que toda a coleção de discussão sobre ética em blogs elevada ao quadrado nestas fábricas de notícias. E onde há podridão, não podem faltar os urubus de plantão. Eu não desejo uma tragédia pessoal que alardeie a opinião pública na vida de ninguém, pois só quem já viu de perto sabe como lambe o beiço (ou o bico) um jornalista marrom louco pela notícia. Parafraseando os Racionais MCs, urubus filhos da puta, comedores de carniça.
Mas eu ainda não acabei. Nós aqui do time do Social Media, a turminha descolada do Twitter e dos blogs que adora uma confusão, que faz história, vira mito e revoluciona a comunicação, não somos mais do que expectadores deste showzinho sem fim, auxiliando o conteúdo da web com piadinhas de gosto duvidoso, boatos que são espalhados sem a menor noção do que está sendo provocado por ele (deixe que a própria Lalai lhe explique o que o boato fez por ela assim que ela aterrisou em Paris, afinal, até isso virou pauta do acidente), e, claro, a tonelada de posts para atrair paraquedistas torpes querendo fotos de cadáveres. Não é melhor em nada do que as práticas dos jornalistas descritos neste post.
Para finalizar este post grande, uma notícia a todos que esperam pela porra da lista de passageiros, como já ouvi por aí: a França não permite que se espetacularize uma notícia. Cada uma das famílias é acionada e, em geral, opta por não vincular o nome da vítima ao acidente. Lá, a imprensa respeita (ou é obrigada a respeitar) cada uma das famílias e amigos, que não podem ser importunados, tomar microfonada, nada. Como a empresa é francesa, tal qual uma boa parte das vítimas deste voo, investiga-se lá e respeita-se as regras de lá. Se alguém mencionar algum tipo de lei para fazer o mesmo por aqui, provavelmente vai ter que ouvir muita ladainha sobre censura, ditadura e liberdade de imprensa. Que me desculpem os colegas comunicadores e me chamem de direitista, eu opto pelo bom senso.
Desejo força aos familiares e amigos das vítimas e um caloroso abraço aos amigos jornalistas sérios que querem os fatos e que ajudaram com as informações deste post.
Update: Vale conferir também um outro ponto de vista sobre o assunto, de uma jornalista que já foi muito xingada e que aponta outros urubus: http://www.trezentos.blog.br/?p=1583. Boa leitura!
14 comentários para “Urubus comedores de carniça”
Lazarento comenta:
03/06/2009 às 9:39 am
Falou e disse, Yassuda. Não bastasse isso, ainda vão aparecer os “Espones”, especialistas em p**** nenhuma”, cada um com uma versão diferente do que aconteceu.
Espone – Especialista em p**** nenhuma « Qualquer gordo tem Blog comenta:
03/06/2009 às 9:54 am
[...] Outro texto interessante sobre a cobertura da tragédia, pela imprensa http://yassuda.org/blog/2009/06/03/urubus-comedores-de-carnica/#comment-712 Comentários [...]
André comenta:
03/06/2009 às 12:29 pm
Concordo muito com você Yassuda. Porém duas coisas:
1. As notícias mais lidas são sempre essas sensacionalistas. Estavam lá, lado a lado, notícias mais técnicas, não tão bem apuradas pois bem sabemos que é impossível ser bem apurada e ágil em situações como essas (e sim, se eu não publicar, o site concorrente publica), e notícías sensacionalistas. A escolha tb é do urubu leitor (e aqui me incluo)
2. Isso não é exclusividade nossa, infelizmente. Li hj msm que a capa do JT de ontem foi escolhida uma das dez melhores do mundo pelo Newseum, museu americano do jornalismo. Qual era essa capa? Fundo preto e fotos de todos os já identificados e encontrados mortos na tragédia.
Anarina comenta:
03/06/2009 às 6:03 pm
Yassudaço,
Acho que o meu post já fala demais. Só tenho uns pontos específicos a acrescentar:
1) A maioria das notícias são todas iguais no mundo inteiro porque vêm pelas agências. Aqui na Espanha, um jornalista que pega um monte de notas de agência, esquenta tudo e acrescenta dados que ouviu na rádio ou na televisão assina a matéria no final. Apuração zero. Nesse caso, o Brasil sai ganhando.
2) Um jornal alemão contou a história da família de cinco pessoas que estava nesse avião. Eram quatro fotos pequenas de cada um (a quinta era uma criança de dois anos), e no fundo uma foto enorme de um avião de outra marca sendo atingido por um raio (uma das muitas especulações nesse momento). Nem a equipe de infografia do G1 fez essas coisas.
3) O programa da Ana Maria Braga tem uma das maiores equipes de jornalismo da Rede Globo. Um dos objetivos dos produtoes é dar enfoque jornalístico ao programa, por isso colocam a apresentadora pra fazer isso. Mas ela não é jornalista né, aí o resultado sai assim. Mas, com a equipe dela e o tempo do programa, daria pra fazer coisa muito melhor.
4) Os jornais franceses também não ficam muito atrás… O Le Figaro já tem um “dossiê” especial, que também tem link com as maiores tragédias de avião e notícias sobre as vidas das vítimas, antes da divulgação da lista.
Jornalismo, infelizmente, é jornalismo em todo o mundo. Esse foi um dos maiores aprendizados que eu recebi nesse meio ano que já passei na Espanha. A lei francesa (nunca li, não sei o conteúdo) pode ser uma boa idéia na França (na prática, porque muita família está falando por conta própria), mas aqui no Brasil conhecemos o destino das leis, né? A biblioteca.
Os verdadeiros urubus | Trezentos comenta:
03/06/2009 às 6:17 pm
[...] e só depois descobri que meu amigo Yassuda (blogueiro e publicitário) havia publicado um com a sua perspectiva sobre os urubus. Acho que, no fim, eu e ele pensamos de maneira igual, e muita gente que comentou aqui também: [...]
Luiz Yassuda comenta:
03/06/2009 às 6:19 pm
André e Anarina, dois amigos jornalistas,
Se a imprensa vai mal onde tem uma vítima do voo, não melhora o que estamos assistindo.
Agora, sobre o ponto do post linkado da Anarina, eu entendo perfeitamente a situação de um jornal pequeno ter que prestar um tipo de cobertura sensacionalista para sobreviver. Se este for o problema de uma Globo, Record, Estado, Folha e (esperemos a Veja) Abril, estamos perdidos… Onde estão os teóricos da Agenda Setting, meu Deus? Eles ditam a opinião pública e vão me dizer que sofrerão perdas publicitárias terríveis se não investigarem os mortos?
Na minha opinião, tem muito urubu sim em redações que não precisariam disso. Mas, obviamente, há urubus que mandam e pessoas do bem que obedecem. E concordo que há muito leitor urubu e familiar urubu também.
Abraços,
murilo campos comenta:
03/06/2009 às 9:50 pm
as vezes me incomoda tanta cobertura de uma mesma notícia. Nao estou menosprezando o que aconteceu, que foi uma puta tragedia, mas a imprensa faz questão de empurrar tudo o que for necessario para ganha ibope.
o pessoal que comentou sobre imprensas de outros paises, pelo pouco que conheço, a brasileira ainda é uma das “melhorzinhas” hehehe. a dos eua é foda (só celebridade), japonesa então hehehehe.
espero que os jornalistas aí que leem o yassuda possam mudar um pouco isso ^^ []´s
Felipe comenta:
05/06/2009 às 9:50 am
Fazem muito bem as forças armadas em não deixar a imprensa reinar em Fernando de Noronha.
Esses abutres já deram causa a súmula das algemas (o Gilmarzão aproveitou da falta de ética deles para justificar a dele). São eles quem desrespeitam os direitos dos acusados, quem não tem limites, quem exploram o sofrimento dos outros!
Limites aos abutres!
Verdadeir@s urubus? « SAPATARIA comenta:
05/06/2009 às 2:17 pm
[...] e só depois descobri que meu amigo Yassuda (blogueiro e publicitário) havia publicado um com a sua perspectiva sobre os urubus. Acho que, no fim, eu e ele pensamos de maneira igual, e muita gente que comentou aqui também: [...]
Achados na Web # 53 | Ladybug Brasil comenta:
08/06/2009 às 1:35 am
[...] Urubus comedores de carniça – Yassuda, sempre ele, faz um fechamento bem bacana sobre as atitudes dos jornalistas nacionais sobre o acidente aéreo da semana (esta expressão é de propósito para evitar que venham aqui buscar o que não existe). Leiam!!! [...]
A Volta Dos Que Não Foram comenta:
09/06/2009 às 12:07 pm
[...] Urubus comedores de carniça [...]
PANICO1910 comenta:
13/06/2009 às 4:50 am
Nunca vi um texto tão bem escrito como este, com tantas verdades!
Eu sempre quis escrever algo sobre isso, de veículos de imprensa que adoram fazer de novela tragédias como esse, menina Isabella, voo da Gol e etc. E eu não engulo a frase do que dizem: “As pessoas gostam de sensacionalismo”, pois se gostam é porque alguém ensinou, isso não é instinto humano.
Parabéns Yassuda pelo texto brilhante.
Mônique comenta:
14/06/2009 às 11:22 pm
Nossa, em qualquer canal de Tv vc vê algum especialista comentando só aqui no Brasil mesmo…na França a única coisa que disseram foi: “Não trabalhamos com possibilidades, esperamos encontrar as caixas pretas para obter mais informações”
Pronto!!! Não é o mais óbvio?
E o Lula hein!!!Que demora pra se pronunciar a respeito!
((( TRETA ))) › Vôo 447 da Air France no twitter comenta:
01/07/2009 às 11:21 pm
[...] * ) O Yassuda também tem algo inteligente a dizer sobre o caso Confira também: Como escapar da [...]
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