Alternativa profissional (3): hippie ou artesão-e-vendedor-de-rua
Escrito em 21/07/2008 | | Permalink

Duvido que você nunca tenha sido abordado, enquanto estava com alguns amigos no bar ou andando pela Av. Paulista, por algum vendedor hippie de pulseiras, colares e anéis. Estes vendedores, que se auto-denominam artistas, oferecem produtos artesanais feitos de arame, conchas, fios telefônicos e afins. E constituem, a partir de agora, a terceira alternativa profissional proposta por este blog.
Por que você quer ser um hippie?
Às vezes, você não tem uma sensação de que os anos 70 não acabaram para algumas pessoas? Só para exemplificar, eu me lembro de diversas discussões acadêmicas de boteco em que se admitia uma alternativa socialista para o mundo sem levar em conta que não existe mais uma União Soviética. Os hippies estão perdidos nesta grande alucinação coletiva, sendo uma alternativa viável aos nostálgicos.
Além disso, você pode considerar uma alternativa hippie mais, digamos, nova. O movimento teve uma releitura nos anos 90 e virou o que chamamos de hippie-chic. Lembra-se daquela novela em que a Sandy interpretava uma hippie que tomava banho todos os dias, vivia em uma casa grande e fazia arte apenas com seda chinesa e pedras preciosas? Pois é. A verdade é que esta releitura do que é ser hippie tirou de cena a lama de Woodstock, a maconha ou o sexo livre e mesclou alguns sonhos materiais, coisa típica das incorporações ideológicas do capetalismo.
Estou divagando demais. A pergunta era “por que você quer ser um hippie?”. Pois então. Ser hippie é isso aí: poder divagar, viver sem pragmatismos, apenas executando a sua “arte”, vendendo pulseirinhas para sobrevivência (leia-se comprar cerveja e/ou maconha), viajando sem rumo por este Brasilzão de Deus, incluindo em muitas vezes roteiros sul-americanos.
Porém…
O primeiro obstáculo é aprender a fazer pulseirinhas. Até que não é difícil. Eu mesmo, quando era criança, aprendi a fazer umas pulseirinhas utilizando pedaços de fio de telefone (eram bem maleáveis e coloridos) que a Telesp deixava perto daquelas caixas de distribuição na rua. Mas é como fazer publicidade, saca? Aprender a desenhar envolve uma técnica e tem toda a questão de ter repertório, mas é mais fácil acreditar em dom. E quando você desenha bem e, portanto, tem um dom, as pessoas acham que você é criativo (outro dom) e lhe aconselham a fazer um curso de publicidade. Então vamos supor neste primeiro ponto que o obstáculo, na verdade, é ter o dom para ser um artista hippie.
Outra coisa interessante é que virar hippie também envolve trabalho em equipe (já reparou que os hippies sempre andam em dupla?). Bem ou mal, você continuará operando com outros valores corporativos, ainda que a meta estabelecida agora seja um número X de cervejas ou o suficiente para pagar um albergue em São Tomé das Letras ao invés de porcentagem de crescimento.
As viagens realmente são um ponto forte para se escolher pela vida hippie. As melhores praias são sempre descobertas por eles e aí seguem duas linhas: ou tornam-se pontos cults e depois populares, ou são exploradas por gente muito rica, que cerca a praia com um muro e expulsa os hippies de lá.
Como obstáculo final, vem uma aflição real de um “maluco”. Certa vez, quando fui abordado por um vendedor no boteco, chamei-o para uma conversa tranqüila, enquanto ele fazia um brinco para uma das meninas da mesa. Ele estava me contando do filho dele, que, é claro, morava com a mãe e com a avó. Sua fala foi interessantíssima:
“Sabe o que eu queria? Que o meu filho se orgulhasse, saca? Que conhecesse o que é ser maluco e levasse em conta que é uma opção de vida. Por isso, eu levo ele para viajar e tal. Quero que ele chegue na escolinha dele daqui uns anos e, enquanto os amigos se orgulham que os pais são pedreiros ou funcionários públicos, meu filho chegue e diga ‘meu pai é maluco e me leva para umas viagens muito loucas! Já conheci o Brasil todo!’. Ia ser muito legal.”
Tal qual a opção de ser ator pornô, ser hippie também não é uma opção abertamente aceita pela sociedade, guardadas as suas devidas proporções. O problema é que, no caso do hippie, as cifras são menores. E enquanto ser ex-ator-pornô é até uma história bonita de vida para ser contada num programa da Luciana Gimenez, ser ex-hippie é apenas trair o movimento, véio.
Em todo caso, se você você quer uma opção que contemple uma saída não só do mercado, mas também do padrão estabelecido pela sociedade, está aí mais uma alternativa profissional.
Acompanhe todas da série Alternativa profissional neste link.
2 comentários para “Alternativa profissional (3): hippie ou artesão-e-vendedor-de-rua”
Henrique Artur Wint comenta:
21/07/2008 à 1:03 pm
Eu tenho um primo hippie, as viagens que ele realiza são muito interessantes. Mas viver dormindo em parada de ônibus ou no meio da floresta não está na minha lista de desejos. Quem sabe para um outra vida.
José Lucas comenta:
22/07/2008 à 11:24 am
Fala Yassuda!
Muito legal a série de posts. Parabéns.
Pra quem e interessou por essa carreira, recomendo o filme Na Natureza Selvagem.
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