Qual é o sabor da pizza?
Escrito em 16/04/2008 | | Permalink

Obviamente, não se trata de um post gastronômico, mas sim de uma metáfora para explicar as minhas impressões atuais deste mercado ao qual voltei, aquele que envolve o que por aí ganhou uma porção de nomes, denominações que indicam o caminho das crenças e de parte da atuação de seus autores: já ouvi below the line, guerrilha, marketing viral, inteligência digital, novas mídias, no-media, redes e mídias sociais e por aí vai. Não que eu esteja querendo pegar uma série de atuações e colocá-las como farinha do mesmo saco, longe disso. A questão é que são tantos os nomes e pouca gente parou para entender e pensar de fato dos desdobramentos, atuações, conflitos de interesse e, por fim, no que cada um deles importa para o todo de um emaranhado complexo que é a comunicação. E, claro, servem também para confundir quem vê tudo isto de fora.
E também não coloco todas as empresas do mundo num só saco, determinando que todas investem o que é a média em todos os variados segmentos de comunicação. Fica a constatação de que, no todo, o investimento maior ainda fica para as agências tradicionais de publicidade, por mais que o isto comece a caminhar de forma diferente, principalmente lá fora.
Dito isto, o óbvio que salta é que todas as especialidades do mercado de comunicação não-tradicional não têm uma pizza para dividir, e sim alguns pedaços dela. É até meio besta, mas serviu para eu pensar um pouco a respeito do que ouvi na semana passada sobre uma das modalidades que come um pouco da borda da pizza: os blogueiros. Falávamos sobre algumas questões pontuais deste agora mercado e uma declaração sobre já estarmos vivendo uma bolha me incomodou (no sentido de me tirar da acomodação da concordância).
Por um lado, os números animam. Nunca na história deste país se deu tanta importância aos blogueiros. Audiência consolidada, tanto pela Long Tail, que explica no gráfico como o fato de “bombar” na blogosfera atinge mais pessoas que um anúncio na Veja, quanto por alguns exemplos de blogs com audiências dignas de algumas revistas e jornais. Isto gerou uma série de investimentos neles. Grana entrando, ex-escritores-de-diários-adolescentes ganhando a alcunha de empresários, consultores e o escambau. Se eu estivesse ali, também desconfiaria: parece bolha.
Entretanto, e aí vai um pensamento raramente otimista deste que vos escreve, os investimentos estão longe de ser considerados altos. Saborearemos o momento em que, por exemplo, as agências de publicidade terão que ter em suas equipes uma pessoa pelo menos em cada departamento que saiba lidar com esta realidade. Talvez não só com blogs, mas com uma inteligência digital que abrange a forma de se fazer propaganda em qualquer mídia e comunicação a qualquer custo. Chegará o dia em que toda a conta de uma determinada empresa, ou pelo menos a maior parte dela, deixará uma agência tradicional e se instalará numa agência modernete. E eu nem falei nada sobre Relações Públicas ou Jornalismo. Tampouco pisei no campo dos produtores de conteúdo como os estúdios de filmes e séries, as bandas de música, etc.
Até lá, a história ensinou que o processo de evolução e amadurecimento nem sempre é algo que acontece para todos e ao mesmo tempo, tornando-o cruel aos desfavorecidos. É possível que o primeiro fator de seleção seja aquele que apontar uma saída ética para o retorno financeiro de quem investir. Talvez seja a formação de grandes grupos de mídia blogueira. Talvez seja quem sobreviver quando o grau de impacto de um post exigir responsabilidade proporcional. Talvez não seja nada disso, mas uma coisa é certa: vai mudar. Você não pode querer mudar o mundo achando que o mundo não vai mudar você.
Do contrário, comeremos borda achando que estamos comendo a pizza. Para sempre.
6 comentários para “Qual é o sabor da pizza?”
Swan comenta:
16/04/2008 à 9:12 am
Analisar um fato é mais fácil depois que ele já espalhou suas conseqüências. É mais fácil enxergar o plano geral depois que a coisa aconteceu. Hoje, temos a possibilidade de analizar melhor a situação atual. Apóio a sua posição: “você não pode querer mudar o mundo achando que o mundo não vai mudar você”.
O tempo de “vamos ver no que vai dar” já passou. O que existem são fenômenos que precisam ser, além de acompanhados, pensados. Somos parte da mudança, estamos no meio do processo. É a epistemologia na web! \o/
Vinicius Costa comenta:
16/04/2008 à 10:06 am
Eu acho que essas “novas mídias” tem que se profissionalizar antes de querer entrar no mercado como negócio seguro e estável.
Eu sei, sei que existem blogs profissionais, sei que existem pessoas capazes de se portar realmente como uma mídia, mas ainda acho que a grande maioria tá só querendo ganhar dinheiro de qualquer jeito, vendendo opiniões, enganando leitores… Acho que o caminho não é bem por aí.
Acredito que existe um futuro promissor para quem levar isso a sério, mas o resto, está fadado a comer um pedacinho da borda, e ficar reclamando dos outros com aquela pontinha de inveja…
Anderson Lima comenta:
16/04/2008 à 10:13 am
Acho bacana o seu ponto de vista, com certeza profissionais que trabalham com novas mídias vão ter cada vez mais destaque e espaço.
Mas a realidade é que as agências que você classifica como ‘modernetes’ entendem pouco ou quase nada de estratégia de comunicação, ou construção de marca em um sentido mais amplo, não considerando apenas mídias novas ou digitais.
E como as mídias ‘tradicionais’ não vão acabar ou perder tanta relevância tão cedo, não vejo como uma empresa deixar a estratégia na mão de uma agência modernente, já que a modernete não consegue atender, entender e executar ações para boa parte da pizza, que continua grande.
Pois é, Anderson. Esta é a realidade aqui. Guardei para os últimos parágrafos os devaneios de um futuro alinhado ao modelo europeu de publicidade e estadunidense de blogosfera. Quanto ao fato das modernentes não entenderem de estratégia de comunicação, valerá também para as agências o processo de evolução descrito no texto. Abraços!
Bruno comenta:
16/04/2008 à 2:38 pm
pô bixo pensei que era alguma boa dica gastronomica alá tempos de ouro do 9 conto, por isso entrei!
muito boa a análise. acho que ainda tem muita lenha pra queimar essa história, e crescer. quem acha que tá comendo a borda hoje tá meio enganado. tá só sentindo o aroma. mas sou otimista.
abraço
Anselmo comenta:
18/04/2008 à 1:14 pm
Eu vim pra dar minha opinião sobre seu comentário no Futepoca e vou acabar comentando o seu post. Bem melhor até.
A reflexão é bem interessante. Não vão faltar gurus para dizer que há bolha e nem os que dizem o contrário. Outros podem até dizer que a bolha é na casca da pizza, mas aí eu não vou entender a mistura de metáforas.
O debate sobre publicidade em blogues é importante. assim como nascem e morrem revistas segmentadas, quem quiser fazer blogue pra ganhar dinheiro, fica susceptível a ter que fechar o lojinha. Quem usa blogue como ferramenta de outros produtos, agrega e pode até rentabilizar essa parte do trabalho, via anúncios. mas se os anúncios não aparecerem, bom, não era a função, era parte de outro projeto. seja ele profissional (espaço pra se posicionar, refletir), pessoal (sei lá com q objetivos) ou comercial (de uma empresa, pra divulgar, pra fazer SAC, pra funcionar como produto jornalístico… pq afinal, as empresas de comunicação mantêm blogues de colunistas e jornalistas profissionais).
Como jornalista, o que mais pega pra mim é o viral, é o subterfúgio, é a intenção oculta, o escondido. Mesmo sem jabá, interesse escondido não pode. Isso me remete à discussão do futepoca. (olha o tamanho do parênteses!)
Lá no Futepoca, a gente teve a crise do marketing viral. A gente lamentava justamente a falta de transparência de parte da blogaiada. Agora, na quarta, diante de um post que só falava do Biro-biro sem citar que fazia parte da campanha (isso é importante, embora tenha ocorrido por trapalhada de um dos autores, que, argentino no brasil ha 10 anos, nao tem obrigação de saber quem é biro biro, coisas que acontecem), a gente estaria contribuindo pra campanha (obviamente sem receber) e, muito grave, sem alertar os leitores.
Editar o conteúdo resolveria? Não na nossa linha editorial. Pelo histórico e pelo tipo de post que foi escrito, não tinha outra medida a se tomar a não ser tirar do ar. O artigo na folha on line vai bem, pq comenta com ironia, incorpora uma entrevistinha com o biro biro e discute uma campanha que vai estar na rua e na mídia. Depois descobri mais cento-e-duzentas ferramentas que a empresa do “suco negro do capitalismo” como diz um amigo meu, vai usar…
Ao tirar do ar o post e publicar o “erramos”, a gente não condena quem comenta campanha publicitária. Isso pode ser pauta, ainda mais pra blogues da área, é claro. Mas sempre precisa ficar claro pro leitor de onde vem o tema, é preciso haver crítica (no sentido amplo, não necessariamente de falar mal, mas eventuais elogios também tem que ser embasados em critérios). Não se trata de se furtar a repercutir campanhas de marketing. Viral ou não. O Futepoca prefere não tratar.
A linha editorial, ainda que cada um tenha a sua, qqr que seja ela, não chega a ser perfeita, homogênea nem livre de contradições. O Futepoca prefere não se pautar por marketing viral. Se, em algum contexto, for o caso, no mínimo, além de dizer que é campanha de alguém, é preciso ter parâmetros críticos. Ela pode não ser a melhor e mto menos deve ser tomada como bastião da ética ou do valor que for (porque não é).
Até essas questões tão colocadas. por mais tempo que tenham alguns blogues, estamos falando de quanto tempo? 10 anos? A explosão tem uns quatro. É um tipo de mídia que a gente vai aprendendo a fazer a medida que aparecem recursos novos. Blogue tem um dado mais informal, menos quadrado do que outros meios. Tem cara de papo de mesa de bar (ou de café, ou de padoca, ou de casa da sogra…). Se tem agência que faz marketing viral colocando gente pra falar bem de produto na rua, como a gente sabe o que é sincero e o que não é?
Na blogosfera, é ser transparente com o leitor. Se todos os leitores vão acreditar na transparência, é mais complicado. Não adianta esperar que as empresas deixem de investir no que funciona. Nem se proibirem, porque se burla. Quem discorda, não reproduz. Mas tem mtas formas de se lidar com a qustão.
Putz, escrevi pacaz. mas o tema vale. Abraço
Anselmo, eu comentarei a respeito num próximo post. Se você permitir (e eu estou lhe enviando um e-mail pessoal), vou utilizar como um dos parâmetros para a discussão a diferença entre a reação de vocês com o post sobre o Biro-Biro e um post do dia 15/4 do Futepoca, sobre uma vodka canadense. O tamanho da empresa entra no julgamento ou seria inocência dos editores em acreditar que a vodka canadense não investiu um centavo sequer em comunicação?
Ah sim, seu comentário é bem pertinente, mas moderei o nome das empresas.
Blog do Yassuda | arquivos | Eu não sou blogueiro comenta:
04/07/2008 à 7:11 pm
[…] que o investimento das empresas nesta moçadinha esperta é pequeno, bem pequeno, coisa que eu já havia ensaiado há algum […]
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