O café acabou
Escrito em 07/04/2008 | | Permalink

Pessoas têm um certo costume de se lembrar com saudades de tempos passados, como a infância e a adolescência ou mesmo alguns momentos pontuais, como o instante do primeiro beijo, da primeira trepa ou afins. Eu não sou diferente, e tenho cá comigo uma série de momentos em que viajo na nostalgia apenas para relembrar os caminhos que me trouxeram até aqui.
Há também, em dosagens mais homeopáticas do que apenas parar uns cinco minutos para relembrar, umas raras ocasiões em que podemos reunir os elementos destas remotas lembranças e fazer uma comemoração, no sentido mais literal da palavra: lembrar junto com todos. Eu quis fazer, nestes últimos dias, um destes momentos. Na verdade, eu quis mais: queria viver novamente certas coisas.
Com esta intenção, corri para a faculdade, tendo em minha cabeça os bons tempos nem tão antigos assim em que eu trabalhei dentro da empresa júnior de lá. Foram treze meses de convivência intensa com colegas, atividades e festas que não me deixam negar que curti muito o meu período universitário. Claro que não tinha na cabeça farrear em um dia o que farreei durante todo este tempo, mas queria sim voltar a viver algumas coisas, só para ter uma sensação egoísta de que o tempo, este fanfarrão, passa apenas para mim.
Mas não passa.
Ao chegar, fui recepcionado pela molecada que hoje toca aquela empresa júnior. Andei pela sala, vi os projetos que eles andam tocando e até fico feliz de ter deixado algumas sementes plantadas e que deram frutos vigorosos uns anos depois. Então, saí da sala e me dirigi à copa do departamento, em busca de um cafezinho. Antes mesmo que eu entrasse, me alertaram:
- Não sei se tem café. A dona Nívea se aposentou.
A dona Nívea chegava bem cedo à faculdade, como eu. Antes de começar a primeira aula, ela preparava o café para as salas dos professores e chefias do departamento. Aos funcionários, era reservada uma garrafa térmica dentro da copa. Eram nos momentos em que a vigia das secretárias baixava que eu entrava na copa, dizia “bom dia” à dona Nívea e surrupiava um copinho. Claro que, trabalhando por lá, as visitas se tornaram muito freqüentes, das 8h às 18h. Nunca tive longos papos com ela, mas também sempre fui cordial ao puxar um pouco de conversa enquanto enchia o copo com os borrifos da garrafa. Beber o café era também um tempo para conversar com quem viesse junto, enquanto bebericávamos o líquido quente e curtíamos uns cigarros. Era, por fim, uma metonímia destes dias simples em que eu achava mais complicado do que realmente era conciliar estudos, a “longa” jornada de quatro horas de trabalho e as festinhas.
Era. Mas dona Nívea se aposentou, o café acabou e eu um dia vou achar estes dias atuais mais simples.
3 comentários para “O café acabou”
Marcela comenta:
07/04/2008 à 12:21 am
Somos então dois orfãos do café companheiro da dona Nívea…
Rafael R comenta:
07/04/2008 à 12:33 am
Nesse dias temos aquela sensação de que “os tempos antigos eram melhores” e, no final de contas, eram mesmo. As mudanças são rápidas e não percebemos de primeira, mas os detalhes sem dúvidas nos fazem perceber as diferenças sutis depois.
É o que digo: não existe a menor possibilidade de deixar de curtir o momento, em hipótese alguma. As mudanças sempre existirão, boas ou ruins, e a gente precisa seguir no trem ocupando nosso lugar habitual (ou não) e no mínimo aproveitar a vista que o mesmo possui.
Rafael Barros comenta:
08/04/2008 à 9:54 pm
Mais um paragrafo eu ia chorar… (brincando xô maxo bagarai)!!
abraços yaya
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