Não há tempo

26/11/2007 | 4 comentários | Permalink |

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Veja, não há tempo.

Você deve despertar de uma soneca que se ousa chamar de noite de sono, e então, o cronômetro dispara: são 3 minutos de banheiro, 5 minutos para um café do dia anterior, 2 minutos para vestir-se, 5 minutos para não perder o ônibus que só passa de meia e meia hora. Chega 15 minutos atrasado no trabalho e resolve calcular quanto tempo você teria por tarefa se resolvesse terminar tudo naquele dia: 2 minutos e meio, aproximadamente. Em 8 horas, logicamente, você não chegou perto nem da metade, mas vai ter que deixar tudo como está, porque as suas tarefas noturnas já lhe chamam. Não sem antes fazer um pouco de hora-extra (duas horinhas apenas) para não deixar o que você conseguiu colocar a mão pela metade. O trânsito da noite faz com que três quilômetros pareçam uma viagem daqui até o Japão, com escalas na Argentina, na Polinésia Francesa, na Índia, em Los Angeles, Fiji, Filipinas, Coréia do Sul e finalmente em Bangladesh. O que você tinha para fazer à noite? Uma aula? Um encontro? Um grupo de discussões? Um grupo de ajuda? Esqueça. Você chegou no fim da sessão e agora, só amanhã. Se bem que amanhã é um conceito relativamente próximo se o relógio marca 23h50. Você chega em casa, liga o computador, checa um ou outro e-mail, conversa com uma ou outra pessoa e, lá pelas 2h da manhã (se você não mantiver um blog), resolve tirar uma soneca.

Bom, eu estou sendo pessimista demais. É claro que as pessoas conversam com você durante o expediente, e a Internet permite que você faça muita coisa na comodidade de sua baia: pagar contas no banco, pagar a compra do mês, verificar o rombo em sua conta bancária. Conversando com os seus colegas, cada um lhe indica uma leitura diferente para você ler no seu tempo livre (para alguns, chama-se horário de almoço): best-sellers e auto-ajuda. Segundo o pessoal, perseverar é o segredo do sucesso. Você deve recitar mantras de sucesso e pensar positivo. Talvez você possa ter um colega mais sádico, que queira lhe ver na merda, e lhe oferte uma obra desesperadora e a obra servirá para lhe inspirar a escrever um (livro? romance? novela? peça de teatro?) post para um blog. Talvez nem isso: uma atualizada no Twitter e olhe lá.

Já cuidamos da cabeça, mas você precisa se preocupar com o corpo. É fascinante que academias agora estejam abertas durante a madrugada, mas não se esqueça que a endorfina liberada após uma corridinha e umas puxadas de ferro não o deixará dormir. Momento de encontrar o equiíbrio em doses naturais de alopatia: um calmante para lhe derrubar de madrugada, um estimulante para lhe acordar, muito café durante o dia. Em alguns casos, anti-depressivos são bem-vindos, além, claro, de pílulas para lhe garantir tesão. É claro que isto vai lhe tirar o apetite no almoço, então procure apenas não acabar com o pouco que sobra do seu estômago comendo besteiras. Opte por aquelas rações animais como soja triturada com aveia e coisas do gênero. Você não está se sentindo mais saudável? Livros sobre de dieta tendem a ser ótimos para você se sentir bem: é só recitar mantras e pensar positivo.

Se você encontrar um tempinho para recitá-los ou pensar positivo, bom para você…

categorias: Comportamento, Corporativo, Crônicas, Textos aleatórios

 

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