Sobre a dificuldade de se encontrar ícones
Escrito em 25/09/2007 | | Permalink

Um comentário no post sobre a Legião Urbana provocou um estalo interessante, que me fez pensar, discutir com algumas pessoas e ainda assim não chegar a uma conclusão. Este post mesmo não é nada conclusivo e por isso, peço que você contribua com comentários, mesmo que ache que não entenda do assunto.
O Dirceu Jr. comentou a respeito da idolatria de Renato Russo pelo pessoal da minha idade, que já o conheceu morto: “a falta de ícones da minha geração me obriga a buscar referências das juventudes passadas. e o Renato é um dos meus preferidos”.
Há muito para se extrair de uma frase como esta: será que não tenho heróis que morreram de overdose? Será que não há alguém para se espelhar durante a dura fase da vida que é a criação de uma identidade própria? Será que vamos conseguir vencer?
Trago a discussão sobre a música por um entendimento que não limita o objeto (a música, no caso) em definições fechadas de quem influencia ou é influenciado pelo momento da sociedade. Ela é um retrato do mundo em que vivemos, ao mesmo tempo que ajuda a construir e divulgar o pensamento que irá mudar ou perpetuar o que é vigente.
Sobre os ídolos musicais, então, podemos dizer que são reflexo do que a sociedade estava produzindo e também que eles foram um dos vetores das mudanças pelas quais o mundo passou. Não há como pensar que o rock´n roll não trouxe, junto com o seu ritmo, uma filosofia. E o mesmo vale para o hip hop (antes que alguém me acuse de só olhar para a Europa branca), reggae, eletrônica e afins. E é fácil identificar pensamentos marcados em ícones fáceis e ideologia forte: o reggae da paz de Bob Marley, o punk do protesto de Sex Pistols, Clash e Ramones, o progressivo da psicodelia subversiva do Pink Floyd, e por aí vai.
Mas hoje? Hoje não há necessariamente um ícone. O pop já não produz nomes de impacto. O rock se perde em todos os seus gêneros, com os substratos de Strokes, filhos bastardos de uma trepa entre Television e Velvet Underground. O reggae virou apenas um motivo para puxar um baseado. E que orgulho negro é esse o defendido por Puff Daddy ou 50 Cent? Sodomia de gostosas e correntes? Soa bem burguês e branco.
As relações entre mundo, ícones e música ficaram mais complexas. Ou customizáveis. Seria a cauda longa? Seria a nossa doutrina cristã iconoclasta se perdendo? Seria a morte da ideologia? Na verdade, estou apenas querendo começar uma discussão.
8 comentários para “Sobre a dificuldade de se encontrar ícones”
Marquito comenta:
25/09/2007 à 2:17 pm
Acho tudo muito relativo. Talvez esses caras são considerados ícones por serem os primeiros de toda uma geração. É a mesma coisa comparar qualquer banda nova, como a imprensa inglesa adora fazer, com os Beatles. Seriam os “The qualquercoisa” os salvadores do Rock? Que salvadores? Quem disse que o Rock precisa de salvadores? Esses caras são a evolução natural do Rock.
Isso é uma consequência da maturidade da música e das bandas como conhecemos hoje. Existem tantas, de diferentes estilos, que acabam gerando essa falta de referencia para a juventude. Acho que se encaixa perfeitamente na Cauda Longa.
Marquito comenta:
25/09/2007 à 2:19 pm
p.s.
Acho Legião Urbana uma PERNADA no saco. Renato Russo era um mala depressivo que só fazia músicas chatas. Podem acabar com a minha raça idólatras do “poeta”. Mas que ele era um mala,era.
cláudio brasil comenta:
25/09/2007 à 3:08 pm
Ótimo tema, a ser discutido.
Graças a Deus eu sou da época em que “a Legião” dispontou para o sucesso e se despediu quando eu ainda estava no colegial. Eram outros tempos… Existia ideologia. É lamentável que os interesses de HOJE, sejam quase que absolutamente comerciais. Não há um comprometimento sério(acredito!) por grande parte das bandas.
O “salve-se quem puder musical” tomou conta do mercado fonográfico e ÍCONES referenciais engajados e com consistência, só mesmo fazendo muito esforço para achar.
Um blogs que fala de Mitos e Ícones da música e do cinema é o http://www.o-prima.blogspot.com
Até mais!!!
Davi Lima comenta:
26/09/2007 à 8:22 am
Acho que as técnicas de fagocitose do capitalismo cultural têm se especializado cada vez mais rápido, inclusive com a ajuda da internet já que a própria long tail, apesar de extremamente benéfica para nosotros, não deixa de ser uma forma de coisificação da experiência musical, como a rádio o é, por exemplo. Não tou reclamando. Lá pra 1940 ou 50, o rock já nasceu orientado para o mercado: músicas curtas, tecnicamente simplificadas, refrões fáceis, ou seja, essa é pra tocar na rádio, como declarou Karnac.
Acho que desde os Hanson passando por Strokes e até White Stripes, Franz Ferdinand e Cansei de Ser Sexy são produtos da mídia. O som É bom, mas a Britney tá mais perto de morrer de overdose do que eles. O fato é que são sons muitos descartáveis, passam longe de um fervor durável.
O que EU vejo hoje de fervor autêntico é algo menos rockstar, apesar de que muitas vezes é confundido e idolatrado pagapaumente com gritos de ACELERA SKAZI, por exemplo. Tou falando do trance e dos DJs de música eletrônica inteligente. Com essa cultura do remix em alta, os caras são craques em inverter lógicas e sensações corporais bagunçando e organizando a pista com consciência coletiva em vertigens.
Como disse um amigo DJ, trata-se de “Música tridimensional, rajadas eletromagnéticas, induções de visão do som, melodias fractais, um motor rítmico de kicks macios e linhas de baixo orgânicas.”
Isso é um bom ícone pra mim. Algo que almejo, acredito e me comprometo no mínimo a sentir e dançar. Por enquanto… =)
Dragoni comenta:
26/09/2007 à 1:29 pm
Como ninguém luta por nada?
E o Bono?
Hahahahahahahhaa
Dragoni comenta:
26/09/2007 à 1:30 pm
O Bono vai salvar o mundo!
Dirceu Jr. comenta:
28/09/2007 à 1:38 pm
Nossa, eu atrasado nem vi esse post seu.
A imagem do CBGB’s diz tudo. Iggy Pop, Johnny Thunders e Richard Hell além lógico dos caras do Ramones são pessoas a admirar. Não pela semelhança entre eles: Heroína. Mas pelo motivo que os leva a usa-la: o desapego a forma de vida robótica da sociedade. A não alienação quanto aos modos pré-determinados de noção do certo e errado. E ao culto ao estranho. Ou seja, ao que diferencia cada ser humano. Besteira? Pode ser, mas é divertido ter esses ‘estalos’ =;D
Rafa Lavor comenta:
28/09/2007 à 5:06 pm
Do nosso ponto de vista, de meros mortais a procura de ídolos, talvez sim “o mundo não é mais como era antigamente”, talvez sim a calda longa se aplique a indústria musical atual, e talvez sim seja o fim dos grandes e megalomaníacos ícones.
Mas talvez não seja ruim. Olhando do ponto de vista de quem fabricava nossos ídolos, digo as grandes gravadoras, hoje nós vivemos num mundo musical ameaçado, comandado por duas letras e um número: mp3.
A possibilidade de se permitir que bandas ganhem espaço por serem verdadeiramente boas, e de alastrarem por aí como virais no YouTube, fazem os bolsos das grandes gravadoras sucumbirem à voz do povo. Não se tem mais ídolos como antigamente porque não se fabricam mais ídolos como antigamente! Punk? Fabricado. Reggae? Fabricado. Emo? Fabricado (desculpem-me pelo último).
Todas as linhas da música, e do Rock pré-2001, podem ter sua essência conservada, contida em algumas bandas incontestáveis, mas para estas vertentes musicais se tornarem fenômenos culturais, elas sempre fizeram questão do empurrãozinho das grandes máquinas musicais, as gravadoras, distribuidoras e rádio difusoras.
Felizmente, hoje temos um meio musical mais democrático. Mais diversificado. Até menos mercantilizado. Bandas liberam suas músicas antes de lançarem seus álbuns, distribuem pen-drives em shows, vendem álbuns com CDs virgens juntos. É conteúdo open-source. É a liberdade musical em prol da música pela música. Mais fácil pras bandas. Mais fácil para o público.
Neste socialismo musical, melhor para nós, amantes do bom som, que, antes de tudo, temos a possibilidade de escutar o que gostamos, e não o que todo mundo gosta. Posso ser um pouco fundamentalista neste sentido, mas vivemos numa época musicalmente abençoada. E exemplos não faltam.
|







